Restos do Vento
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
DIA 27 OUT | IPDJ | 21H30
RESTOS DO VENTO
Tiago Guedes, Portugal, 2022, 126’, M/14
sinopse, ficha técnica e trailer: aqui
nota de intenções
Desde sempre me questionei sobre as razões da violência entre as pessoas. Hoje mais do que nunca essa pergunta permanece sem respostas possíveis ou tangíveis. Vivemos numa sociedade que avança no tempo mas que não evolui, come-se a si própria, cada vez mais afastada da natureza a produzir em excesso apenas com o fim do lucro. Uma sociedade que se esquece daqueles que por uma razão ou outra ficam para trás, daqueles que não conseguem acompanhar, ou que escolhem não o fazer.
Este filme nasce da vontade de reflectir sobre a violência exercida pelos mais fortes sobre os mais fracos, essa ilusão de poder que nos inunda em todos os aspectos da sociedade. Reflectir sobre a perda da inocência, onde ocorre e por que razões.
E talvez a maior de todas as vontades fosse reflectir sobre o medo, e sobre como ele nos condiciona, como nos transforma e distorce a realidade.
O pano de fundo deste filme é o confronto entre a nobreza fundamental do ser humano e aquilo que chamamos de maldade humana, muitas vezes nascida do medo, daquilo que se estranha, desconhece ou ignora. Um confronto ancestral que a sociedade camufla, esconde, e que não tem a noção ou o conhecimento ou a cultura para o conseguir erradicar.
Daí nasceu a necessidade de reflectir sobre os rituais de passagem (aqui representado através de uma tradição semi-pagã ancestral), quase sempre ligados a manifestações violentas e misóginas que tentam de alguma forma simbolizar essa “separação” extrema onde se abandona um estatuto social para se adquirir um outro. A necessidade de pertencer a um grupo, a vontade de ser aceite por aqueles que consideramos mais fortes, assim como a vontade e a necessidade de humilhar os mais fracos, são infelizmente traços ainda demasiado actuais e certas tradições, não apenas de rituais antigos, parecem querer legitimar a forma como os grupos exercem o seu poder e violência sobre os outros. Veja-se todo o tipo de praxes existentes nas mais diversas formas.
Uma comunidade que esconde os crimes do seu passado, que não os examina e não se retrata, será incapaz de prevenir as violências futuras. Viverá assombrada sempre. É a sombra que chega antes do corpo. É a antecipação do que poderá acontecer. Há culpados, vitimas e carrascos, mas não há justiça. Há medo. Um medo que muda as percepções e faz ver o mundo através da sua lente distorcida. Um medo do que é estranho e desconhecido e que promove a injustiça e a violência que caracterizam o nosso mundo. Não há moral, porque não há espaço para ela. Só há tragédia. E medo.
Tiago Guedes
notas críticas
Um dos muitos pequenos grandes milagres do trabalho de Guedes é conseguir ser filme de atores e ao mesmo tempo recital de câmara sobretudo porque é no trabalho de grupo dos atores que reside aquilo que de mais fulminante passa por aqui mas também porque cada plano-sequência encerra um prazer e um desejo de cinema puro (…) Rui Tendinha, Diário de Notícias
Ao mesmo tempo que encerra um drama onde ressalta muito do que nós somos, enquanto portugueses, "Restos do Vento" vive de uma condução sólida e segura da narrativa pelo realizador, da assombrosa fotografia de Mark Bliss e do notável trabalho de alguma da elite dos atores e atrizes portugueses, oferecendo-nos um filme que merecia seguramente uma entrada na competição e que já tem encontro marcado com o público nacional para o próximo dia 22 de setembro. João Antunes, Jornal de Notícias
O realizador Tiago Guedes leva-nos a uma aldeia remota em Portugal onde um bárbaro ritual pagão realizado há um quarto de século ainda mantém um forte domínio sobre um grupo de adultos que revisitam memórias reprimidas na sequência de uma nova tragédia. Uma sensação palpável de flagelo paira sobre as acções (…)
O cenário rural de Restos do Vento é exuberantemente fotografado por Mark Bliss, com turbinas eólicas ao longe a única indicação de modernidade. Mas o que pode parecer atemporal também pode ser percebido como arcaico, e Guedes (A Herdade) é crítico de uma comunidade presa a velhas formas de pensar. Esta é uma sociedade patriarcal com poucas oportunidades económicas, e uma vez que o corpo de Pedro é descoberto, o filme deriva para um terreno tonal mais escuro, os personagens aparentemente envoltos em sombras que reflectem a tensão não resolvida de sua infância compartilhada. Tim Grierson, Screen International
Outras Leituras