MULHERES, TERRA, REVOLUÇÃO
DIA 25 DE ABRIL | CENTRO CULTURAL E DE INOVAÇÃO DE BORDEIRA | 11H
ENTRADA LIVRE
MULHERES, TERRA, REVOLUÇÃO
Rita Calvári e Cecília Honório, Portugal, 2025, 54′, M/12
A Revolução Portuguesa fez-se de Norte a Sul, do litoral ao interior. Num país ainda marcado por uma economia assente na agricultura, as transformações no mundo rural foram decisivas. No Sul, em pleno território do latifúndio, trabalhadores e trabalhadoras ocuparam mais de um milhão de hectares e criaram mais de 500 cooperativas e unidades coletivas de produção. No Norte, dominado pela agricultura familiar, camponeses e camponesas organizaram-se em múltiplos movimentos para defender a produção, conquistar direitos sociais e lutar pelo acesso à terra.
No quadro da Revolução de Abril, a Reforma Agrária foi uma expressão maior do poder popular. Rompendo com as tradicionais formas de exploração e subjugação, ela criou ainda novas formas de sociabilidade e mudanças profundas nos quotidianos. Apesar deste processo, o papel das mulheres rurais — e o impacto da Revolução na sua emancipação — permanece amplamente ignorado, ainda que seja essencial para compreender este período transformador.
A partir de entrevistas a mulheres envolvidas na Reforma Agrária nos campos do Sul, a ativistas do movimento camponês nas regiões de agricultura familiar no Norte e a jornalistas que acompanharam o processo revolucionário, este documentário revela o contributo decisivo das mulheres rurais na resistência ao fascismo e no período revolucionário. Ao colocá-las no centro da narrativa, reconhece-as como agentes sociais, políticas e históricas, dando visibilidade às suas experiências, lutas e conquistas.
Com base em investigação de arquivo e testemunhos diretos, o filme parte de um conjunto de perguntas fundamentais: Como resistiram estas mulheres à ditadura? Como viveram o 25 de Abril? Que transformações sentiram no quotidiano, no trabalho e nas relações familiares? De que formas se organizaram? Como fizeram ouvir a sua voz num contexto dominado por homens?
Ao explorar estas questões, o documentário oferece uma leitura mais profunda da Revolução Portuguesa, sublinhando o seu papel na democratização e na emancipação das mulheres rurais. A história de Abril — e da construção da democracia — escreve-se também no feminino e permanece incompleta sem integrar as lutas destas mulheres por direitos, liberdade e dignidade. O filme contribui para essa memória coletiva, evocando a resistência, o poder popular e a conquista da liberdade.
Ao destacar o papel das mulheres na organização e na dinâmica do poder popular, desafia a narrativa dominante que reduz o 25 de Abril a um golpe militar rápido e a uma transição linear para a democracia liberal, apagando os movimentos sociais que se lhe seguiram. Essa leitura minimiza o processo revolucionário e invisibiliza a ação coletiva no mundo rural, frequentemente tratada como secundária.
Este documentário confirma que a Revolução foi um levantamento popular com forte expressão nos campos. No Sul, a Reforma Agrária permitiu a conquista da cidadania a grande parte da população rural, que “tomou em mãos o seu próprio destino”, experimentando novas formas de organização social e de democracia. No Norte, embora o balanço seja menos claro, também aí se romperam silêncios, medos e formas de repressão, dando origem a diversos movimentos e lutas camponesas. As mulheres rurais estiveram presentes — e, sobretudo, foram protagonistas — em todos esses processos.
Cinquenta anos depois, recuperar a memória da Reforma Agrária e das resistências rurais é fundamental para devolver às mulheres e às comunidades camponesas o lugar que lhes pertence na história da Revolução. Estas lutas não foram marginais: foram estruturantes na construção de um Portugal mais justo, democrático e plural.
Rita Calvário e Cecília Honório
