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Donzela Guerreira

Categoria hospedeira: Programação
in Ciclo do mês

 DIA 10 | 5ªf | IPDJ | Às 20h45

DONZELA GUERREIRA, Marta Pessoa, Portugal, 90’, M/12

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

“Donzela Guerreira”: Um filme sobre a invisibilidade das mulheres no Portugal salazarista
Inspirado na vida e obra das escritoras Maria Judite de Carvalho e Irene Lisboa, "Donzela Guerreira" conta a história de uma mulher que vai à luta numa Lisboa da década de 1950. Marta Pessoa inspirou-se na obra e na vida de Maria Judite de Carvalho e de Irene Lisboa para construir uma personagem chamada Emília Monforte, escritora emancipada num mundo de homens no Portugal da década de 1950, em plena ditadura salazarista. Ao mesmo tempo, a realizadora segue o esquema de Donzela Vai à Guerra, uma das novelas inscritas no Romanceiro, de Almeida Garrett, que também serviu de base estrutural do clássico Silvestre, de João César Monteiro.
Ainda mais interessante do que isso é o dispositivo que a realizadora montou para esta sua primeira longa-metragem de ficção. Usa o texto narrativo, em off, como base literária e transversal. O texto comanda todo o filme. A imagem submete-se à sua função ilustrativa e isso tanto é feito com excertos de ficção, num sentido clássico, como através de imagens de arquivo. Tudo é trabalhado de forma sóbria, austera, quase minimal, sem excessos nem floreados que provoquem ruído.
Assim, Donzela Guerreira torna-se uma obra extremamente conseguida em toda a sua originalidade, que não é desviante em relação aos documentários da realizadora, como Quem Vai à Guerra (2011), até pela localização temática e a abordagem recorrente do universo feminino. Um filme simples, eficaz e tocante, que nos leva a redescobrir as obras de duas grandes escritoras.
Manuel Halpern, Visão

Donzela Guerreira: Lisboa, menina, moça e mulher madura
Arrisca-se a passar ao lado este engenhoso exercício de memória e ficção da Lisboa de 1959. Donzela Guerreira, a partir da inspiração das escritoras Irene Lisboa e de Maria Judite Carvalho, estreia-se hoje em poucas sessões em cinemas selecionados. A partir de agora, a cineasta Marta Pessoa é um nome a seguir.
Surpresa bem agradável caída do céu. Depois de uma passagem discreta pelo IndieLisboa de 2019, Donzela Guerreira estreia finalmente no circuito comercial, uma longa-metragem entre a ficção pura e dura e o registo documental com imagens de arquivo. Estamos na Lisboa dos anos 1950 e seguimos a libertação de uma mulher, Emília, uma escritora que desafia convenções e sozinha trilha um caminho no meio literário, sobretudo depois de um noivado falhado.
Esta Emília criada pela cineasta Marta Pessoa é uma composição imaginada do espírito de Irene Lisboa e de Maria Judite Carvalho. Uma convocação de vultos e olhares de uma força feminina num Portugal salazarento e machista através de fotografias de uma Lisboa de outros tempos e da narração de Emília, nomeadamente por intermédio de uma emissão de rádio onde responde a perguntas de uma locutora charmosa. Donzela pronta a ir para a guerra, perde uma vida burguesa para se instalar num pequeno quarto e trabalhar num jornal para pagar contas, evitando uma existência de silêncios e de representações de papéis dados pela sociedade.
Marta Pessoa constrói um fio dramático narrativo a partir de uma junção de texto literário e de memória fotográfica de arquivo. Elementos que se dispõem numa matéria plástica simples mas sempre bem organizada, nomeadamente quando a voz desta mulher que não se resigna e traz consigo filtros de uma nostalgia muito emotiva. Anabela Brígida é a protagonista e com a sua voz e entoação notáveis ajudam-nos a ficar mais próximos da personagem, uma atriz que liga bem com a outra protagonista, uma Lisboa onde havia uma elegância intemporal e um certo gesto majestoso perdido, como se o peso do arquivo permitisse todas as possibilidades de ficção. E aí Donzela Guerreira enceta um desafio: o espetador no lugar do leitor. Dito de outro modo, é um filme para ser lido... Situa-se na mediação do peso das palavras e da suavidade da evocação, enfim, nos confins de uma saudade magoada.
Se Marta Pessoa trabalha a memória portuguesa do arquivo, fá-lo de um modo exaltante e com um cuidado estético que se descodifica em cada plano, em cada pormenor de iluminação. A própria maneira como Irene surge no começo apenas como uma sombra é a prova do tal "statement" sobre a invisibilidade feminista. Em última instância, há aqui momentos que valem mais do que muito do novo cinema feminista ativista que chega aos festivais mais abastados. O tom feminino da câmara de Pessoa não é uma bandeira, é uma bela consequência.
A cineasta articula processos discursivos da literatura de Irene Lisboa e Maria Judite Carvalho com um jogo curiosíssimo sobre a emancipação do real e um inevitável ponto de observação neutro. Aqui e ali vai-se um pouco abaixo quando precisa de um último terço mais conclusivo. Vemos soluções de objeto remediado, especialmente em virtude de um orçamento que deveria ter sido maior. Mas a melancolia do objeto nunca é perdido. O espetador sai da sala com um desconsolo que faz parte da própria ideologia do projeto, cartografando-se o pessoal e o social. Nesta Lisboa onde as fotografias do passado inventam histórias atrás de histórias, Marta Pessoa encontrou um tom certo para celebrar uma cidade que se vê e ouve.
*** Bom
Rui Pedro Tendinha, DN

entrevista à realizadora

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