A NOIVA
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
16 FEV | 21H30 | IPDJ
A NOIVA
Sérgio Tréfaut, Portugal, 2022, 81’, M/12
com a prersença do ator Dinis Gomes
sinopse, ficha t+enica e trailer: aqui
A NOIVA AS RAZÕES DE UM FILME
Quando, em junho de 2014, o auto-proclamado Estado Islâmico fez de Mossul a sua capital e Abu Bakr Al-Baghdadi declarou o início de um novo Califado na grande Mesquita de Al Nur, não acreditei no que via e ouvia. Eu tinha visitado Mossul várias vezes no ano anterior, durante a pesquisa para um documentário sobre as consequências da intervenção norte-americana no Iraque. Ainda guardava vivos na memória os cheiros e as cores do mercado da cidade. Foi lá que comprei os ténis que usei durante anos. Perguntava-me o que teria acontecido àqueles vendedores de tão variadas origens e credos: cristãos, arménios, curdos, judeus, chiitas, sunitas. Ao mesmo tempo, como todos os ocidentais, fui surpreendido pela adesão de muitos jovens europeus à ideologia radical do Estado Islâmico. Eram milhares, ou dezenas de milhares, os adolescentes que partiam para a Síria e para o Iraque. Não pertenciam apenas às segundas gerações da imigração muçulmana. Alguns eram jovens cristãos, ou sem origem religiosa, que se tinham convertido a uma estranha forma de idealismo assassino. Em Portugal uma vintena de combatentes passou a ter cara, nome, destaque na imprensa, direito a capa de revista. Alguns pareciam personagens de novela, pela forma como entravam nas nossas vidas. Queríamos seguir o que lhes poderia acontecer nos próximos episódios. Estes jihadistas portugueses eram facilmente separáveis em dois grupos: os jovens de origem africana, sobretudo provenientes da linha de Sintra, que tinham ido jogar futebol no UK Football Finder ou tentar a sorte de outra maneira no Reino Unido, e que tinham sido convertidos por extremistas paquistaneses em Londres; e os filhos da imigração portuguesa, em contacto próximo com as comunidades muçulmanas na Europa do Norte, marcadas por um forte sentimento de rejeição. A partir de 2015 comecei a escrever um argumento que contava a história de um dos rapazes do primeiro grupo, ligeiramente inspirado na história do ex-futebolista Fábio Poças, adorador de Cristiano Ronaldo, incluindo o seu casamento com Ângela Barreto, filha de imigrantes portugueses na Holanda. Durante anos li biografias de jihadistas como Jihadi John, falei com sobreviventes, segui os crimes praticados pelos extremistas, sem nunca chegar a perceber totalmente o que motivava os jovens ocidentais a se converterem. Quando tinha o argumento quase pronto, cheguei à conclusão que aquele não era o filme que eu queria ver. Parecia-me um biopic, um thriler para a Netflix. Não me alimentava o espírito. Transmitia talvez a ilusão de compreender um percurso que eu não compreendia, apesar de ter estudado o assunto. Foi mais ou menos neste momento que se deu o desmembramento do Estado Islâmico e a queda de Mossul, reconquistada pelas forças curdas e pelo exército iraquiano, com apoio internacional. De um dia para o outro, começaram a surgir as histórias perturbadoras das viúvas de jihadistas e dos milhares de órfãos. Éramos confrontados com imagens de campos de prisioneiros, tanto na Síria como no Iraque, e esse universo me pareceu imediatamente mais rico. Era finalmente o momento de poder ver e ouvir as jovens que tinham deixado tudo para casar com combatentes do Daesh. A minha pesquisa foi então desviada para os julgamentos das viúvas e para as famílias ocidentais que tentavam contactá-las. Na França, surgiam as associações de entreajuda de pais que trocavam experiências porque não entendiam o que tinha acontecido aos seus filhos. Em menos de um mês escrevi uma primeira versão do argumento de «A Noiva». Algumas conversas foram ligeiras adaptações de transcrições de diálogos reais, como a sequência do tribunal ou o diálogo com o general e o depoimento do coronel sobre a captura da personagem principal. Outras cenas têm maior liberdade ficcional. Acabei por fazer um filme em contraponto do que via nos media, onde a maioria dos meios ocidentais procurava explicações sociológicas ou psicológicas para algo que continuará sempre a ser misterioso. Nos piores casos, havia repórteres que procuravam colocar-se no lugar da justiça. Assumi que seria interessante fazer o contrário: oferecer ao espectador a ilusão de estar num lugar onde nunca esteve e descobrir uma realidade perturbadora, uma personagem dividida entre dois mundos, sem oferecer um conforto explicativo. Procurei fazer um filme intrigante, tal como são estas jovens, tão diferentes umas das outras.
Sérgio Tréfaut
notas críticas
[...] A Noiva, que começou por ser o projeto de um documentário sobre uma “hipocrisia” americana, a de que imprensa e eleições livres garantiam a democracia no Iraque, foi progressivamente dando origem ao que é hoje: uma ficção sobre as raparigas, de 16 ou 17 anos, que se entregaram ao destino dos rapazes com uma divisão insanável dentro de si que os transformou em jihadistas.
[...] O documentário que então começou a preparar resultaria de contactos e conversas com jornalistas iraquianos e procuraria desconstruir uma verdade de Estado dos americanos, que aliás abandonavam o país entregando-o ao caos. Foi então que Mossul caiu nas mãos do Daesh. [...] O projeto ficou impossibilitado. Mas outras possibilidades se abriram ao realizador: a quantidade de jovens europeus, entre os quais portugueses, que se alistavam nas forças do autodenominado Estado Islâmico.
[...] A Noiva é, assim, o resultado das circunvoluções da relação do cineasta com um país desde 2013/2014 até hoje. Conta uma das suas histórias: uma rapariga tem agora 20 anos, vive num campo de prisioneiros com dois filhos, esperando um terceiro, é uma viúva de 20 anos que aguarda julgamento nos tribunais iraquianos.
Vasco Câmara, Público
Filmando no Curdistão iraquiano, com notável qualidade fotográfica e enquadramentos sóbrios, Tréfaut parece ter sempre como prioridade dar-nos um pedaço de realidade, levar-nos ao espaço, num registo quase documental (que é nitidamente onde se sente mais à vontade), feito de verdade e verosimilhança. Sentimo-nos como se estivéssemos lá. Prontos a tirar as nossas conclusões ou impressões sobre a indecifrável personagem.
Manuel Halpern, Visão