ROSA DE AREIA
-
Categoria hospedeira: Programação
-
in Ciclo do mês
DIA 23 |IPDJ | 21H30
ROSA DE AREIA
António Reis e Margarida Martins Cordeiro, Portugal, 1988-89, 88’
Cópia digitalizada pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
Rosa de Areia parte de uma série muito diversificada de textos, desde o Atharva Veda, um dos livros canónicos do hinduísmo, a ensaios de Michel de Montaigne ou escritos da própria Margarida Cordeiro. No interior dessa enorme teia, reflete sobre a condição humana desde tempos antigos até ao presente – estratificação temporal simbolizada pela rosa-da-areia, uma formação geológica que resulta da ação combinada da água, do vento e da areia. Além dessas fontes, o filme decorre também diretamente da realidade física de Trás-os-Montes. Baseando-se naquilo que descrevem como a “imaginação prática” das gentes da região, os realizadores trabalham com matérias e elementos que ecoam os seus lavores e ofícios. Partindo da vida material destas comunidades, efabulam uma narrativa que vai muito para além delas, convocando outros atores e paisagens.
notas
É um filme sobre a condição humana. É feito da matéria das ilusões: dos sons, das visões, dos ritmos, das palavras, da música. Desenvolve-se livremente no tempo e no espaço, ao sabor das forças internas.
À medida dos seus apelos interiores.
Eu diria que “Rosa de Areia” é, totalmente, um filme de matérias. Matérias em permanente devir. O vento natural torna-se vento de tuba, o vestido das atrizes contracena com as nuvens, a tridimensionalidade cai aos pés da bi-dimensionalidade, o plano-sequência é emparedado pelo fixo, a música é o silêncio e a cor modulada, a luz mais pura passa a flutuante e difusa. O sentido do labor sobre as matérias (implicando-se e implicadas) não pode, pois, delimitar-se: é múltiplo, refaz-se constantemente e sobretudo interroga, elabora formas…
“Rosa de Areia” não passa como uma torrente: esvai-se em lenta rotação, em lenta translação, movido pela insubmissa energia das formas cinematográficas.
António Reis
“Rosa de Areia” é um filme para quem pode ainda ver e ouvir como que pela primeira vez; como se fosse o primeiro filme surgido na terra e falando sobre ela.
Houve a luta com as formas, muito tempo antes de serem filmadas; o filme “mental” mudou vezes sem conta, mesmo após ter sido sujeito à escrita prévia da(s) découpage(s). Filmadas, as formas revelaram-se muito belas, estranhas, hostis ou mesmo incompatíveis (planos que não puderam incorporar-se na montagem).
Impunham-se, rejeitavam-se, atraíam-se, estavam vivas. Finalmente, “Rosa de Areia” estava ali, contra mim (fazendo parte de mim), no escuro das salas, palimpsesto complexo e fugitivo no écran, jogo de luzes e sombras, de sons e de silêncio.
É a alegria muito funda e grave durante todo este longo e inenarrável processo.
Margarida Martins Cordeiro
Como resistir ao encanto deste diálogo tão conjugal que o seu mistério quase desperta ciúme? O espectador será tocado, como eu, por uma asa da memória, e sentirá que ouviu, no silêncio e no escuro, qualquer coisa como uma reminiscência de conversa entre um pai e uma mãe. Nesse aspecto, não sei bem se periférico, “Rosa de Areia” é um filme perfeito.
Regina Guimarães
Primeiro trabalho dos autores em 35mm, “Rosa de Areia” é um filme magistral, composto de planos admiráveis, com sistemática e rigorosa utilização do plano-sequência. É difícil não ficar deslumbrado perante tanta beleza, mas, essa beleza é também um risco. Se este cinema é também uma experiência dos sentidos e do conhecimento, não será necessário amá-lo e não apenas admirá-lo, sentir-se transportado por ele e não apenas contemplá-lo? E, no entanto, é de uma beleza prodigiosa!
Augusto M. Seabra
Após os 90 minutos de projeção na sala da Cinemateca, tudo o que se disser sobre “Rosa de Areia” soa a tagarelice. Quando o silêncio fala assim, só resta calar. Tal como está construído (e destruído, no ritmo dialético que é a sua respiração), o filme impõe-se como um dogma da santíssima trindade.
Talvez por isso ouviu-se na sala da Cinemateca, por duas vezes, a palavra “religioso”. Claro: é religioso o que religa todos os contrários e antinomias.
Afonso Cautela
Cada vez mais árido, o cinema de Reis-Cordeiro encontrou a harmonia no ciclo do nascimento e da morte. Em “Rosa de Areia”, já não existe um território delimitado. Habita-se a “natureza infinita onde se desenham e apagam todas as formas”. E se “a maior parte do cosmos é vazio”, acede-se à palavra, ao diálogo entre a poesia e a ciência, para que todos os discursos sirvam a continuidade do mundo.
Como afirmou António Reis, muito antes do seu último filme, ainda existe “o respeito pela pedra que se está a esboroar, mas se temos o sentido da pedra, é porque lhe demos muita cabeçada”.
Rui Catalão
“Rosa de Areia” eleva-se a um grau de depuração formal que lhe retira pontos de apoio que o identifiquem com um grupo socio-cultural determinado, para se tornar numa longa meditação sobre a natureza humana e o destino da vida.
José Coutinho e Castro
Colaboração com Cinemateca Portuguesa- Museu do Cinema
